reforma idiótica

(post que ficou no rascunho por muito tempo e, em parte, venceu o prazo de validade. mas dane-se)
Estou vendo as notícias sobre a reforma ortográfica, que se aproxima de nossas cabeças. Tentar forçar-nos a falar mais parecido não irá nos tornar iguais, sequer mais próximos, aos nossos primos lusitanos e africanos. O que aproxima os humanos são suas alegrias e suas tristezas, seus amores e suas dores (e neste caso, suas rimas pobres).

O problema maior é que, sendo o nosso país repleto por um povo que teve seu cérebro lavado desde a mais tenra idade pela “cultura” da Globo e do SBT, onde as alegrias e tristezas são aquelas ditadas pelas novelas e pelo carnê do baú, é quase impossível que as pessoas tenham uma visão de que haja um outro povo, em um outro lugar, com uma história completamente distinta da nossa, onde se fala Português.

É virtualmente impossível para um elemento da massa conjurar qualquer empatia por essa figura abstrata chamada, por exemplo, Moçambicano. “Tio, é uma moça bicano o quê?” me perguntaria talvez o Zé Povinho. Onde fica esse tal de Moçambique?

Isso me lembra quando, em 2007, na estrada entre Raleigh e Washington, nos Estados Unidos, parei para almoçar numa lanchonete e a moça, notando meu sotaque estranho, quis saber de onde eu era. “Bem, eu venho um lugar bem longe, se chama Brasil”, eu disse. Ao que os olhinhos dela, completamente opacos de conhecimento, fitaram o vazio. “Isso fica no Reino Unido, não fica?”. A ignorância não tem fronteiras.

Mais do que uma reforma gramatical, seria preciso ter uma reforma cultural. Reformar a falta-de-cultura, e colocar conhecimento. Contar as histórias dos outros povos. Mostrar novos horizontes. Contar histórias clássicas travestidas de personagens contemporâneos e concretos. Um dia, quem realmente quiser ler os clássicos da literatura, os lerá, mas até então dar algo mais acessível e que transmita a mesma essência.

Mais do que uma reforma gramatical, é necessário uma reforma de comportamento. Mostrar às pessoas que existe sim uma multiculturalidade enorme nesse mundo que dividimos e que é preciso tolerância para conseguir entender as diferenças e aprender com elas.

Ah! Estou chovendo no molhado novamente. Mas me canso um pouco de ver, viver, num meio em que essas pequenas mudanças cosméticas são propagandeadas como se fossem a salvação. Estou cansado dos heróis e de todos os seus planos definitivos.

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