saber ouvir

Eu sempre tive muita sorte: inúmeras pessoas que cruzaram o meu caminho tinham algo a dividir comigo, algo a acrescentar à minha existência. Por várias vezes, eles me confrontaram com perguntas que eu não queria fazer a mim mesmo, com alguns “Por quês?” que eu não tinha vontade de fazer. Se por um lado isso atesta a minha fraqueza – humana – que não me permitiu fazer as perguntas eu mesmo, por outro lado, isso depõe a favor da humanidade, da fraternidade, da solidariedade. Nada mais solidário que ajudar alguém a caminhar por suas próprias pernas. Mas, assim como a tal ex-namorada, muitas vezes eu ouvi apenas um começo, um comentário, um questionamento, não necessariamente tão profundo, e já reagi. Que eu me lembre eu não execrei ninguém :-), mas as reações também têm várias formas: algumas são elétricas tormentas furiosas em mares revoltos; outras são silenciosas, sutis, gentis e reclusas como uma ostra pensativa, ou um vaca ruminante filosofando sobre o advento do falecimento de sua prole.

Da mesma forma que ela (a ex, não a vaca), eu também, ao ser perguntado, ou melhor, confrontado com perguntas inesperadas, cutucado em minhas feridas escondidas e mal saradas, reagi subindo os escudos. A partir daí, nada mais que foi dito importou a mim. A partir daquele ponto, em que o nervo estalou, em que a carne se contraiu em torno da chaga, ali se fez a barreira. Ali se criou o muro, e ali se fez o só, no sentido mais miserável da palavra.

“Hey you, standing in the road always doing what you’re told, Can you help me?
Hey you, out there beyond the wall, Breaking bottles in the hall, Can you help me?
Hey you, don’t tell me there’s no hope at all; Together we stand, divided we fall.”

É possível viver só, sem sombra de dúvidas: é algo que demandaria um esforço incrivelmente grande, gasto principalmente em força de vontade. Poucas pessoas neste mundo têm a determinação necessária para isso. (Nem todas elas têm a necessidade de fazer isso, mas isso é uma outra discussão). Mas a solidão não desaparece jamais, a solidão da jornada sempre existe. Pode-se negar, a si mesmo e aos outros, pode-se ligar a TV ou o rádio para não se pensar nisso, mas quando chega o fim do dia, depois do trabalho, da janta, do sexo, da conversa e de tudo mais, quando você encosta a cabeça no travesseiro e é só você, a solitude está lá: é a sua jornada, não a de ninguém mais.

A única coisa que torna essa experiência mais suportável, são os outros. O Universo conversa conosco, seja em forma de pessoas, de acontecimentos, de verdades tão avassaladoras em nossa existência que é impossível negá-las. Para ouvir, basta prestar atenção. Basta abrir os olhos, os do coração, para se ver. E para viver com os outros, é preciso ouvir. É preciso saber ouvir, com os olhos do coração, sem escudos, sem as verdades absolutas e inquestionáveis. Ouvir sem o passado, sem o futuro, apenas com o presente. É preciso saber ouvir.

Advertisements
This entry was posted in pensar. Bookmark the permalink.

2 Responses to saber ouvir

  1. Boni® says:

    Interessante este seu post! Isso me faz, como você mesmo disse, ruminar sobre nossa amizade e acredito que já faz algum tempo que ela está “silenciosa”.

    De qualquer forma isso não importa porque acredito que nada acontece por acaso, que por trás das suas indagações há sempre uma resposta, não exatamente perfeita, mas coerente com cada situação. Tenho convicção de que quando ler este comentário, se lembrará de muitas coisas, algumas boas e outras nem tanto. Não, eu não estou falando da nossa amizade nem dos ex-colegas de trabalho… estou falando da vida…

    Sei que não sou próximo o bastante para lhe dizer isso, mas eu também nunca me importei com isso.

    A frase destacada no final do Post “É preciso saber ouvir” tem um quê de religião, de filosofia, de poesia, … nunca te imaginei assim tão “sensível”. É interessante observar o pregresso!

    Abraços do amigo,

    Boni®

  2. Anônimo says:

    Eu conheço a sensação que vc descreve nesse post. Acho que a gente não sabe ouvir quando não consegue verbalizar a resposta. E cada um reage a seu modo, como vc mesmo disse. Muitas vezes ainda acaba transferindo pras ações, como a criança que fica emburrada em vez de perguntar por que não pode isso ou aquilo. Se já é difícil compreender totalmente o que é verbalizado, imagine o que é feito.
    Infelizmente ter consciência da situação não é suficiente pra resolver esse problema, pelo menos pra mim :).
    Mas nesse mundo sórdido que a gente vive hoje, vc é uma pessoa diferenciada, ao menos se questiona, está no caminho certo.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s