os dias no barco

Rybinsk, 02 de Julho de 2007

Eu adoro barcos, então só de estar navegando, eu fico mais feliz🙂 é muito bonito. Há paisagens lindíssimas aqui (também tem as feias, mas eu não preciso me lembrar delas), e as cidades que estamos visitando são muito antigas. Uma delas, chamada Uglitch (Углич), foi fundada no ano 937. Rybinsk (Рубинск), de onde acabamos de sair enquanto escrevo, é do século XI. Na rua principal da cidade, por vários quarteirões não há nenhuma edificação construída após o século XIX!!!

Estar no mesmo barco que franceses, suíços, sul-africanos, australianos, americanos, chineses, colombianos, russos (claro!), etc… é uma salada total. Hoje, no jantar, os franceses ofereceram a todos umas rosquinhas (sem piadas, por favor), acho que trouxeram de lá, mas não tenho certeza. O indiano não gostou da rosquinha :-o). Depois, ao sair, fui à mesa dos franceses e agradeci em francês, eles ficaram com os olhos arregalados: You speak French too?” – o too é provavelmente porque já acham que eu falo russo.

Ontem à noite eu, os outros dois mosqueteiros, o Miguel (Colômbia) e o Sios (África do Sul) bebemos no porto, depois viemos para o barco e tem um “bar-discoteca” aqui no barco também, e ficamos bebendo junto com o barman – que também se chama Alexei. Na Rússia, todo domingo é o dia de alguma profissão, e ontem era justamente o dia de quem trabalha com navegação em rios, então o Alexei do bar liberou uma garrafa de vodka, free of charge. Não, não houve nenhum vexame, mas eu fui dormir e não vi absolutamente mais nada depois, quando acordei já era o outro dia. Aliás, hoje a Marina, nossa guia, muito gentilmente conseguiu arranjar com o pessoal do barco para me transferir para uma outra cabine que estava vazia, pois até então eu estava na mesma cabine que os meus pais, e simplesmente não havia espaço. A minha “cama” era basicamente uma prateleira a um metro e meio de altura. Eu não tenho a menor idéia de como eu consegui subir lá ontem à noite, bêbado, e não acordar ninguém.

Hoje na loja de souvenirs, eu arranhei meu russo com as duas senhoras que estavam me vendendo as coisas, e por fim uma delas até me deu de presente uma colher de madeira pintada, que é um enfeite tradicional russo. Em russo, a palavra krasna (красна) quer dizer vermelho, mas também há um segundo sentido que é “bonito”. Na cultura russa, o vermelho é sempre associado com a beleza. Segundo o prof. Mashovetz (Машовец) , é porque nesta terra faz muio frio e pouco sol. Então vermelho, que é naturalmente ligado ao fogo e ao Sol, acaba incorporando o sentido da alegria de ter Sol, ou fogo, para se aquecer nos dias frios. De alegria para beleza é um pulinho. Por falar em clima, desde a terça-feira passada que aqui chove ao menos uma vez ao dia. Assim que o Sol desaparece, a temperatura despenca drasticamente. Da mesma forma, quando ele volta também esquenta rapidinho.

Ah, mais uma coisa de ontem: no porto de Myshkin (Мышкин), ontem à noite, uma turma do nosso barco, parou no bar e tomamos umas cervejas. No bar tinha muitas pessoas, a maior parte jovens, molecada de 18, 19 ou 20 e poucos, e como eu pedia as cervejas em russo (ou tentava!), logo um deles veio conversar comigo, perguntou se eu falava russo, eu expliquei que falava só um pouquinho. Daí ele perguntou de onde nós éramos, e eu consegui explicar para ele, que eu era brasileiro, mas ali na mesa tinha sul-africano, australiano, colombiano… o menino ficou de queixo caído!! Myshkin é uma cidade muito pequena e muito pobre, mas que também é uma cidade bem antiga (século XIII é a menção mais antiga encontrada… não se sabe ao certo pois a cidade depois veio a ser completamente destruída pelos tártaros, e passaram-se uns 2 séculos após isso para que ela fosse reconstruída). Imagine Você morar numa cidade pequena de 6000 habitantes apenas, e de repente ter visitantes da China e do Brasil!! Eles queriam conversar, saber como é o mundo lá fora, saber o que eu faço, como é o Brasil, etc… é igual cidade do interiorzão do Brasil. Foi uma aventura linguística ficar tentando conversar com eles.🙂 Infelizmente meu Russo ainda é muito cru para manter uma conversa mais longa, e apenas um deles falava um pouco de Inglês, então não consegui muita coisa. Mas foi uma experiência muito feliz. Ele agora vai poder dizer que tem um amigo brasileiro.

Em Uglitch, eles têm um monumento a todos os que morreram em todas as guerras e conflitos do mundo. Eu achei isso muito bonito da parte deles.

[pausa para o dia seguinte…]

Na 6a.feira passada teve o banquete de despedida. Foi nos jardins do Museu Russo em S. Petersburgo, e haviam vários serviçais com máscaras venezienses e capas fazendo as honras aos ilustres estrangeiros. Só que choveu. Putz grila, como choveu. Caiu uma água sem fim, justamente quando nós estávamos entrando. Eles montaram umas tendas enormes, e puseram as mesas embaixo. Apesar do guarda-chuva que nos foram emprestado,s eu cheguei com uma manga da camisa completamente encharcada. O jantar foi um tremendo de um banquete, com música, festança, rojões no final, balões voando para o alto. Os russos que organizaram este congresso se esforçaram bastante para fazer essa última festa grandiosa, para compensar a tremenda falta de organização que houve aqui nos outros dias.

A cidade se chamada Plyós (Плëс) – que significa “um trecho reto de rio” – de fato, do alto do morro que domina a paisagem na cidade, pode-se ver 8 km rio acima e 8 km rio abaixo. Quinhentos ou seiscentos anos atrás, isso era muito mais do que importante, para avistar os inimigos enquanto ainda estavam longe.

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